Quando o crente é pior que o incrédulo
31 de outubro de 2017

Por Wedrey Valente Brum

Em 1914, na pequena Stanley, Inglaterra, Joseph e Charlotte Netherton estavam nos preparativos de um grande acontecimento: o nascimento de seu esperado bebê! Eles nem imaginavam, mas aquela criancinha ainda seria instrumento nas mãos do Senhor Deus, para anunciar As Boas Novas a centenas de pessoas, não apenas em sua pátria, mas além do oceano também. Deram-lhe o nome de Mary, posteriormente conhecida por seus amigos brasileiros como Miss Mary ou Maria inglesa, que foi enfermeira durante a Segunda Guerra Mundial. Tempos difíceis aqueles! Mas apesar de tudo, tinha uma vida feliz, e sempre podia contar com seus familiares… e como ela amava suas duas irmãs!

   Enid e Mary com o pai Joseph

         Mary ainda na Inglaterra

Cristã fervorosa que era, sentiu o desejo ardente de proclamar A Palavra do Senhor a quem porventura ainda não tivesse ouvido. Foi então que em 1948 partiu para o Brasil…. aquele país tropical! Ela sabia que era um lugar quente, só não imaginava que passaria tanto calor assim.

 

Primeiramente fixou-se em Conceição de Carangola onde aprendeu a língua portuguesa com o irmão William Anglin, que ali morava desde 1930. Desfrutou da companhia de seus novos amigos brasileiros e ingleses que ali também estavam.

William Anglin, Kenneth Jones, Stanley Hughes, Mary Netherton e brasileiros em Conceição

Kenneth Jones, William Arthur Wood, William Anglin, Stanley Hughes Mary Netherton, Colin Wood, Jean Wood, Keith Wood e Margaret Wood

Tudo era novo… mas aos poucos a nossa querida personagem foi se adaptando, até que se sentiu preparada e capacitada pelo Senhor para seguir adiante.

Foi então que mudou-se para a comunidade de Ponte Alta, ainda no município de Carangola. Durante aquele período morou na residência de Valdinho e Belinha. Que casal mais abençoado! Construíram uma amizade linda que duraria até o fim de suas vidas terrenas.

Mary ia a pé evangelizar em lugares distantes por toda a área rural. Quando menos se esperava, lá estava a querida estrangeira pelos vales e morros, ruas calçadas ou empoeiradas, com ambas as mãos ocupadas carregando suas companheiras de trabalho: sombrinha e Bíblia. Imaginem só, uma dama européia vinda do nordeste congelante da Inglaterra, com sua pele tão alva e sensível, andando quilômetros e mais quilômetros a pé, de baixo do sol do meio dia, isso sem contar os insetos com os quais topava no caminho. Sacrifício? Sim, mas ela não se importava, pois quão grande e incomparável foi o sacrifício do Senhor Jesus, carregando aquela cruz pesada estrada afora. E foi tudo por amor a ela. Foi tudo por amor a nós.

Em suas visitas diárias, a senhorita Netherton percebeu uma coisa. Naquela época muitas pessoas não sabiam ler e nem ao menos escrever seus nomes. Tendo isso em vista, começou a se empenhar também na alfabetização de adultos, que era algo especial para ela e para seus alunos.

Miss Mary e alguns irmãos de Ponte Alta

Passado algum tempo O Senhor a enviou para São Francisco do Glória, ainda naquela região, e ela foi de mala e cuia. Obediente que era, foi sem temer, e ali fixou residência. Contava com a companhia dos irmãos Antônio Alves Monteiro e José Dutra, homens zelosos e trabalhadores. A pacata São Francisco do Glória, predominantemente católica, não os aceitou com muita alegria, mas nossos irmãos continuaram o seu serviço incessante. Entre 1950 e 1951, surgiu uma perseguição sob a orientação do padre Bruno Conrado List, que era o vigário naquela época. A perseguição foi tão intensa que ninguém comparecia as reuniões evangelísticas feitas pelos “protestantes”. Foi um tempo muito difícil. Certa vez, o padre, incitou a multidão para atacá-los na rua. Uma pedra atingiu Antônio Alves bem na testa, que caiu inconsciente. Naquele exato momento passava por ali o senhor José Luis que era vizinho da inglesinha por quem ele muito tinha apreço. Por ser um cidadão muito bravo, era temido pelo padre que por sua vez, desfez o motim e foi-se embora.

Antônio Alves Monteiro, com um curativo na testa, devido pedrada. Foto oferecida ao seu filho com a dedicatória no verso:

“[…] Ofereço-te esta fotografia, para você ter como memorial, que o papai foi ferido por causa do Evangelho, pois o próprio padre foi o que me pegou primeiro, e mandou os seus cangaceiros me matar […]”

 

Ser apedrejado na testa! Que coisa horrível! Quanta dor! Porém, infinitamente mais doloroso foi o machucado que O nosso Senhor teve em Sua testa. Machucado feito pelos espinhos daquela coroa. Machucados feitos por nossos pecados.

Passado algum tempo o padre Bruno foi transferido e outro veio para o seu lugar. Seu nome era Ernesto Herger, que também perseguiu Miss Mary, mas não com o mesmo ímpeto que seu antecessor.

Mesmo com todas adversidades, dona Maria inglesa seguia trabalhando, não só ali, mas em toda a redondeza. Mas o que o padre não gostava, as crianças da região amavam! Elas iam ao encontro da gringa em massa para ouvi-la falar do amor de Deus. Ela costumava levá-las à praia, e a criançada gostava muito desses passeios. Também era realizado um trabalho infantil na Fazenda Maranhão que muito frutificou. A criançada ficava admirada com aquelas lindas histórias sendo contadas com um sotaque um tanto carregado e com aqueles métodos que eram novidades para os pequenos mineirinhos, como slides e flanelógrafos, sem falar dos corinhos que se demonstravam verdadeiros trava-línguas para a britânica.

Tempo depois Miss Mary mudou-se para a cidade de Carangola, e construiu uma residência no bairro Triângulo à Rua Antônio Thomé, 100, cooperando com a igreja existente naquele bairro. Como sempre, não cansava de andar! Ia pelas ruas da cidade, anunciando o Evangelho, juntamente com sua amiga e nova companheira de luta, Maria Carlos Nogueira.

Ah! Como a protagonista dessa história amava servir ao Senhor! Aqui ela vivenciou cada momento que jamais pensaria que podia um dia viver, momentos esses que sempre contava à sua família por meio de suas cartas. Ela não esquecia seus parentes amados. Estava sempre orando por eles, mandando correspondências e, até os visitou algumas vezes. Eram tempos preciosos e de comunhão com a família.

Após uma de suas visitas à Inglaterra, Miss Mary embarcou no R.M.S. Alcantara aos cinco dias do mês de fevereiro de 1958. Como sabemos, naquela época, a jornada era muito longa, o que dava a oportunidade de conviver por muitos dias com os outros viajantes.

No mesmo navio estava a jovem Margaret Holden com seu bebê nos braços. Seu esposo já estava trabalhando no Brasil há algum tempo, no escritório da Nestlé, em Barra Mansa – RJ, e agora ela vinha encontrar seu amado naquele país para ela desconhecido até então. Margaret conheceu Miss Mary a bordo e começaram a conversar. Mary contou como era o Brasil e como Margaret devia cuidar de seu neném. A cautelosa mãe ficou assustada ao ouvir falar que nessa terra haviam baratas! E ela nunca tinha visto uma. Quando o Alcantara ancorou no Brasil, cada uma das inglesinhas seguiu seu rumo. A mais jovem nem suspeitava que anos mais tarde ainda ouviria falar novamente de sua companheira de viagem, muito menos que chegaria a morar ao lado da casa onde ela morou, mas essa já é história para outra biografia.

Miss Mary regressou ao seu lar após aquela viagem onde havia passado momentos preciosos com sua família que ela tanto amava.

No decorrer de 1959, acompanhou o trabalho em dois pontos de pregação no bairro Santo Onofre. A obra foi prosperando, e então surgiu o desejo de se construir um pequeno salão para reuniões, com uma residência nos fundos para os irmãos Geraldo Pereira e Maria Duarte, que seriam os zeladores. Foi então que Miss Mary pediu ao senhor Geraldo que procurasse um terreno, e assim ele fez.  Após encontrarem um bom local, começaram as construções e no dia quatro de outubro de 1959 foi inaugurada a Casa de Oração do bairro Santo Onofre.

1ª Casa de Oração em Santo Onofre

Em 1963, aconteceu algo que foi de grande alegria, não só para Miss Mary, mas também para o povo Carangolense. Enid Netherton (Enedina), sua irmã, veio morar em Carangola. Elas fizeram uma nova casa no bairro Ouro Verde. Assim podiam estar mais perto do bairro Santo Onofre, e ajudar a igreja ali.

Casa onde moraram as irmãs Netherton no Bairro Ouro Verde

Miss Mary radiava de felicidade! Estava junto com sua irmã, e agora podiam trabalhar juntas. Cada manhã faziam a leitura Bíblica acompanhadas da amiga Maria Infância, que as ajudava no trabalho doméstico.

Enid escreveu sobre Maria Infância:

“Ela era a nossa fiel ajudante, trazia o nosso leite e correspondências a cada manhã e ajudava a preparar o nosso almoço.”

As irmãs tiravam um dia da semana para irem evangelizar o bairro Triângulo, e sempre contavam com a companhia da irmã Maria Carlos.

Mary Netherton ensinava adolescentes a fazer tricô e crochê, tudo isso era feito sem cobrar nada. Ela aproveitava a oportunidade para falar do amor de Deus, e algumas dessas jovens entregaram suas vidas à Cristo.

Alguns anos depois, Maria inglesa foi surpreendida com uma infecção renal. Ela foi operada, passou alguns dias no hospital para recuperar-se e voltou para casa.

A noite do dia onze de setembro de 1970 não foi como outra qualquer. Por volta das 21:00 horas, Mary Netherton teve uma parada cardíaca. O Doutor Fernando Hosken constatou que aquela senhorita tão amada por todos que a conheciam, havia falecido devido a um infarto do miocárdio. Foi uma noite cheia de lágrimas na pequena cidade de Carangola, porém foi de grande alegria para aquela inglesinha que dedicou sua vida ao seu Senhor que agora a havia chamado para Si.

A notícia chegou a Conceição, então logo Kenneth e Dorothy Jones acompanhados de Phyllis Dunning, que naquela época há moravam ali, vieram para a cidade e pernoitaram na casa das Netherton.

Para os brasileiros, aquele velório foi um tanto quanto diferente do que estavam acostumados. O caixão estava na sala, com o corpo de Miss Mary vestido em seu pijama. Enedina e os demais ingleses foram dormir e só abriram as portas para o velório na manhã seguinte, quando chegaram os nativos com flores nas mãos que haviam pegado pelo caminho, para cobrir o pijama.

Túmulo de Miss Mary, em Carangola

Depois disso, Enedina continuou a evangelizar a população. A casa agora pareceria vazia se não fosse o transbordante amor do Senhor. A fiel amiga Maria Infância continuava dando suporte nos afazeres do lar.

“Depois que a minha irmã foi estar com O Senhor, ela (Maria Infância) vinha todas as manhãs para ficar comigo. Eu lia a Palavra de Deus e ela orava tão amorosamente para que eu tivesse ajuda do Senhor Jesus e para que eu tivesse o amor e cuidado de Deus para os meus dias no futuro. Deus tem respondido a oração dela, foi-me dado saúde e força a cada dia desde então.” (NETHERTON, Enid)

Passados seis meses da morte de sua irmã, vendeu a casa em que vivia para o senhor José Natalino e voltou para a Inglaterra, mas nunca esqueceu seus irmãos do Brasil. Até voltou uma vez para visitá-los.

Enedina e crianças de Conceição em sua visita ao Brasil após voltar para a Inglaterra.

Enedina ainda reside na Inglaterra, em Gateshead, uma aconchegante cidade banhada pelo rio Tyne. Já se passaram mais de quatro décadas desde que partiu do gigante Brasil. Com avançada idade, Enid não se lembra mais da língua portuguesa, mas não se esquece dos momentos aqui vividos com sua irmã e amigos brasileiros, e também não se esquece do seu Salvador.

Enid Netherton

 

The Angel of the North, Gateshead

 

13 Comentários

  1. Leticia Buter disse:

    Que história linda e emocionante!!!!! Um exemplo de pessoas com o coração cheio de bondade e amor! Parabéns Wedrey!!! 👏👏👏👏👏👏👏

  2. maria disse:

    Quanta saudade deste tempo era td muito bom agora nos resta saudades

  3. Sinésio disse:

    Belíssimo trabalho irmão! Sempre que leio histórias de nossos irmãos semelhantes a esta, não há como conter a emoção! Deus o abençoe por trabalhar pela preservação desta história!

  4. Irene Viana disse:

    Maravilha relembrar de Dona Maria Inglesa. Aprendi a palavra de Deus e vários corinhos com ela. Ficávamos felizes com a presença dela em nossa casa.Ficava conosco várias semanas nos ensinando a Bíblia. Saudades.!Mulher de Deus.

  5. Rhaiane Moreira disse:

    Após ler esse texto tão lindo, só tenho o sentimento de querer viver o mesmo que essa querida irmã. Não precisei conhece-la para ama-la. Que vida inspiradora!
    Excelente trabalho Wedrey. Me deixou desejosa de ouvir a história de Margaret Holden.

  6. Ilza Nogueira disse:

    Que lindo Wedrey. Foi muito bom ver seu empenho em relatar fatos tão importantes pra nós, me lembro muito dela em minha infância, ela sempre nos visitava. O amor dela pelo Senhor era fantástico.

  7. Meu querido Wedrey, meu coraçao esta exultante em ver o que sempre almejei! Estas historias de HEROIS reais para todos lerem! Amei! Um dia teremos isto em colorido para que eu possa contar para as crianças! Rsrsrsr. quando voce publicara a historia da nossa amada Tia Phillys? Deus te abençoe meu menino! Parabens. Bjs da Tia claudia

  8. Fabiano Jorge Nicolau disse:

    Wedrey, elucidativo o texto acerca duma história que jamais conheci, mesmo quando ainda estava “empolgado” com o contexto. Fico alegre por trazer à lume lembranças memoráveis.

  9. Quézia disse:

    Ela abdicou o seu país em prol do evangelho.
    É importantíssimo contar essas histórias, manter viva a lembrança de irmãos que amaram mais ao Senhor do que suas próprias vidas.
    Continue escrevendo e pesquisando Wedrey, são acontecimentos valiosos.

  10. Kesia Valente disse:

    Agora sei a origem da casa em Ouro Verde … que já passei e passo maravilhosos momentos..

    A única felicidade encontra-se em Jesus.. Incrível toda a dedicação das Irmãs em prol do Evangelho.

  11. Tercio disse:

    Belíssimo trabalho, Wedrey!!
    Revitalizador, realmente. Parabéns!!

  12. Katiline Carneiro disse:

    Que linda história de amor ao evangelho!
    Parabéns por resgatar e registrar essas histórias que enchem nosso coração de alegria e nos enriquecem com o testemunho.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pin It on Pinterest